
Nome: Antônia de Fátima Brito
Idade: 43 anos Natural de: Cedral (SP)
Filhos: ( ) Não (x) Sim: quantos? dois filhos.
Atividade: Doméstica.
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E assim começaria o preenchimento de um cadastro para um emprego novo, para um cartão numa loja ou uma ficha no posto de saúde. Mais uma afronta na vida de dona Tonha (como seus amigos a chamam). Uma mulher de tez negra, que faz com que tudo termine sempre com uma boa gargalhada, sem perder a indignação, porque é forte o suficiente para rir do que não lhe convêm.
– E aí dona Tonha? Tá frio e chovendo, por que você vem de chinelo? Não sente frio?
– Ué, porque se eu vir de sapato fechado, vão me molhar de qualquer jeito... Aqui o pessoal não passa devagar se vê uma mulher negra caminhando na rua.
Quem acredita em democracia racial no Brasil pode até achar uma afirmação infantil, descabida, mas um dia com Antônia revela algo mais mundano e sem qualquer academismo, de quem sofre e fala sobre preconceitos sem pudor nem eufemismos.
– Desde quando você trabalha como doméstica?
– Ihhh... Desde os sete anos.
Nessa época, sua rotina era tranqüila... Pela manhã, cuidava dos seus irmãos mais novos, fazia o almoço para 12 pessoas, colocava a comida toda em uma mala que arrastava com a mesma mão que levava seu irmão no colo, no outro braço, ia o outro bebê e sua mão arrastava o que sabia andar. Todos iam para a roça. E tinha que ser na hora certa, afinal era o almoço de quem estava trabalhando debaixo do sol. Quando voltava pra casa, deixava tudo no jeito e ia para sua segunda jornada, trabalhava como doméstica na casa de uma família.
– Eu falo que nasci trabalhando. Todo ano tinha novidade, minha mãe falava que vinha a cegonha e jogava os muleque lá de cima, como a mais velha das meninas era eu – e menina é que se ferrava –, eu fazia tudo. Os guris não faziam muito, não. Se eu não fizesse, apanhava. E meu pai batia que nem... Meu pai era horrível! Em casa eram três mulheres e sete homens. Ninguém merece... Meus irmãos me encheram muito o saco. A cidade em que nasci era pequena – então, namorar nem pensar: em cada esquina tinha um irmão e o pai ainda... (risos) não tinha jeito.
– E qual a lembrança mais forte dessa época?
– O que mais lembro dessa época era ter que encerar o chão da casa da senhora, com o “vermelhão”, aquilo, sim, era uma tristeza, depois tinha que tirar todas as manchas dos móveis... O pior é que o dinheiro que eu ganhava lá meu pai pegava. Ele dizia que se a gente quisesse ter o nosso dinheiro, tinha que trabalhar no sábado. Assim, bebia o nosso trabalho.
E assim foi até o momento que ela não agüentou mais a vida que levava. Antônia e seus irmãos pediam para que sua mãe largasse o pai, que bebia demais e batia nela. Ele saia de tarde de casa, e comprava a “marvada”, chegava em casa, estocava e ia bebendo pinga, ali mesmo, na frente da família.
– Eu era o saco de pancada, levava surra de vara verde e meu pai mandava minha mãe colocar na salmoura depois.
Sua mãe não gostou da idéia de largar do marido e Antônia tomou o rumo. Saiu de casa aos 15 anos. Foi para Corumbá (MS), com Masao, aquele que era agora seu novo patrão e quase herói porque a levou com eles, pra longe das surras.
– Mas, e aí, dona Tonha, gostou do calor de Corumbá?
– Não (risos), mas gostei, sim, de Corumbá: foi a primeira cidade que eu conheci depois que saí de Pedral. Era gostoso, tinha rio, era um lugar diferente. Mas, daí fomos para a capital, Campo Grande. A família com quem vim se separou depois de uns 15 anos e acabei ficando em Campo Grande, tava com meu ex-marido e já tinha um filho.
– E como você percebeu o preconceito por causa da cor de sua pele, Antônia?
– No colégio, mesmo. Porque nós éramos os três únicos negros da escola.
O pai de Antônia achava que mulher não devia estudar. Mas, num dia em que ele dormiu, a mãe fez sua matrícula e de mais dois irmãos no colégio público de Cedral. Ela ficou apenas uma semana, mas teve grandes descobertas e tristezas.
– Você imagina, né? Nós tivemos que se virar. Botei pra quebrar (risos), porque todo mundo queria judiar dos meus irmãos. Chamavam de tudo que é nome, por causa da cor – tipo “macaco” –, e achavam que batendo ia resolver o problema. Só que eu era mais forte. Daí a gente resolvia na hora da saída (risos). Só que quando meu pai acordou, me tirou logo do colégio.
– E como vocês se sentiam nessa situação?
– Quem é que não fica triste quando é mal-tratado? E não era só por aluno, não. Tinha uma professora que nos odiava de carteirinha, ela tinha uma régua bem grande e ia bater no meu irmão pequenininho, daí pensei: “ela vai matar ele”, então quebrei a régua. Sei que eu pus a sala abaixo aquele dia. Quando mexia com a gente, eu tinha que defender, e o único modo que tinha pra se defender era na porrada. Falar ninguém ia ouvir. A coisa mais triste foi ver meu irmão, que tinha epilepsia, levando chute dos muleques da escola quando tava caindo no chão. Daí não teve outra: porrada.
Uma dúvida neste momento parece comum, onde estão essas criancinhas que certamente se tornaram homens fortes e que certamente defendem dona Tonha hoje...
– A minha família eu já perdi o contato faz tempo, eu mandava carta, e o Correio devolvia – isso quer dizer que eles mudaram de lugar. Quase 20 anos que não tenho notícias. Meu pai não me interessa muito, mas minha mãe e meus irmãos...
– E quem é sua família hoje?
– Tenho dois filhos. O Willian tem 14 anos, e o Leonardo 12. Tá morando só eu com meus dois filhos, graças a Deus larguei do traste do meu ex–marido, pai dos meus dois filhos. Quando ele quer dar bênção nos filhos, só do lado de fora...
Antônia não suporta o ex-marido. Começou pela família dele, que não suportava a idéia dela ser negra. Mas, ele mesmo era preconceituoso, ela conta que quando estava desempregada, ele encontrou um emprego de cozinheira, e foi fazer a mediação, e alertou a dona do estabelecimento: “mas olha, ela é negra!”. A dona contratou Antônia, e ele continuou a tortura com ela. Ele bebia e não a deixava dormir enquanto não dormisse. Era de novo a “marvada” em sua vida.
– Foram anos terríveis, que terminaram quando meu querido ex-patrão Masao me achou de novo.
Masao é um biólogo, pesquisador de sapos, além disso é o patrão e herói nipônico de Antônia, que depois de vários anos de perrengue por não ter um emprego fixo, é encontrada por ele na lista do SINE (Agência Pública de Emprego).
– Antes do Masao me achar eu só tinha a renda da Bolsa-Escola e da lavagem de umas roupas que fazia. Não conseguia me estabilizar em um emprego porque tinha que sair todos os dias antes das 11 horas da manhã.
Seu filho Willian teve diagnosticado atraso cognitivo crônico, o que faz com que ele tenha certas limitações e precise de mais tempo para aprender as coisas do dia-a-dia, como falar ou comer com autonomia. Por isso, durante um tempo, ele freqüentou a Pestalozzi de Campo Grande. Dona Tonha desenvolveu um método para atender seus filhos. Ela precisava ir pra casa, apanhar a marmita e Leonardo, seu filho mais novo, daí eles iam para o terminal Júlio de Castilho, que fica em uma das saídas da cidade, esperavam o Willian que voltava da Pestalozzi, almoçavam, e ela embarcava cada filho para um canto da cidade, depois esperava no terminal. Quando dava 5 horas da tarde, eles se encontravam de novo e iam, enfim, pra casa. Quando voltou a trabalhar com Masao, ela finalmente pode largar essa rotina avalassadora e principalmente largar do marido. Não dava mais, não tinha parceria. Foi com seu primeiro salário fixo que ela alugou uma casa e pegou todas as coisas suas. Seu marido deu um prazo dele voltar com a bebida pra casa pra ela retirar suas coisas. A vizinhança ajudou.
– Difícil tudo isso, hein, dona Tonha?
– Vixe, mas tem muito mais. Teve uma vez que fui comprar uma sandália da Tip-Top pro meu guri, numa loja bem conhecida daqui, na 14 de Julho, bem no centro da cidade. Só que eu fui normal e entrei pela porta normal, né? Eu ia lá comprar um sapato. Só que eu cheguei lá e tava cheio de madama. Me chamaram, me levaram para uma portinha, no fundo da loja, e me ofereceram uma sandália de plástico, bem horrível, marrom, que parecia velha e me falaram que eram uns sapatos diferentes, melhores pra mim. Daí, falei que queria uma sandália boa. Eu até mostrei que tinha o dinheiro. Mas não comprei lá, não. Às vezes você entra num lugar o povo vai atrás de você. É pra acabar!
– Essas coisas matam, assim como usar sandálias de plástico...
– É, sim (risos). Tem também a história do posto de saúde, que aconteceu seis meses atrás. Eu tava com dor de garganta. Fui ao posto de saúde, fiquei horas e horas, quando o médico apareceu disse que eu tinha problema de obesidade e bebida...
– Mas, ele perguntou o que tinha acontecido?
– Não. Perguntou o que eu tinha, e eu disse: “dor de garganta.” Eu tava quase sem falar, tava rouca, por isso que eu fui, porque, se não, eu nem ia. O médico não me passou remédio nenhum. Eu que tive que comprar, não resolveu meu problema e ainda saí irritada. Ele acha que todo negro bebe e fuma. Pô, e eu era mais magra, não sou obesa. E bebida, eu sou da igreja. Mas, se eu bebesse? O dinheiro é meu...
As histórias tristes de Antônia de Fátima Brito não param de acontecer e nem fazem parar o sorriso daquela mulher negra, sim, com orgulho.
– E hoje? Como está sua vida?
– Melhor. Eu vivo sozinha com meus filhos, sou amiga deles. O Leonardo me ajuda demais, e o Willian já vai sozinho pro colégio e pra Apae. Tenho namorado, que é muito meu amigo. Ele é negro, mas a família dele implica com a gente, porque todos se casaram com moça branca... Eles querem embranquecer a família (risos), mas a gente continua junto e vai continuar.
Moral da História:
Nem toda risada é idiota. Nem todo patrão é filho-da-puta.

2 pessoas falando:
As duas reportagens foram pra mesma revista? Eram várias? Muito bem escritas, duras, mas como deve ser. Gostei um pouco mais de como escreveu a anterior... Oo
é uma série de fascículos que a gente fazia parte, foram 16 amigas, histórias de preconceito e tudo mais..
vou colocar outras lecais.. hihi
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