
Assistindo um filme tosco, deve ser de hollywood, onde os publicitários recebem a punição de um psicopata maluco. Vivendo um tempo tenso, como um suspense mal-feito. Por isso, vamos fazer uma pausa, e o que se faz em pausas? toma-se café.. Esse texto foi publicado no oitavo fascículo os Negros... Ainda um perfil, de um garoto que eu e meu ex-colega botamos o olho e logo pensamos, "é ele". Num evento grande, o Teia, em Brasília 2008, muitas pessoas discutindo sobre cultura, acesso e diversidade. parecia tudo um grande cliche, no Hotel Nacional, um hotel classudo, em que as paredes ecoavam. e sim, ecoava cultura, no meio da politicagem, CULTURA. e no meio da cultura. um garoto. de uma história. de um sorriso belo.
E agora, tá na hora de Café.
Luana Schabib, Fascículo "Os negros número 8".
Num café da manhã, encontramos com um garoto que tinha miçangas coloridas enfeitando cada ponta daquelas 43 tranças de sua cabeça. Sua camiseta azul-clara, com o quase menino maluquinho, desenhado por Ziraldo, estampado junto da sigla “PIM”, fazia um contraste bonito e rápido com a cor de sua pele negra. E o que parecia ser uma onomatopéia, era na verdade o indício de sua paixão pela música.
Como é o seu nome?
“Pablo Sergio, mas todo mundo do PIM me conhece como Café”.
E o que é o pim?
“PIM - Programa Integração pela Música”
A partir daquele momento, Pablo já começava a notar que precisaria fazer uma listagem de coisas que teria que nos passar. Sua maneira de falar demonstrava uma disciplina e sensibilidade. Ele não agüentou ver as anotações da jornalista, suas informações pessoais, sendo anotadas num pedaço de guardanapo. Ao final da entrevista, ele de fato entregou um papel com coisas importantes de serem lembradas, para melhor registro, com sua letra bem desenhada, alinhada e bem espaçada.
E você, toca o quê?
“Eu toco percussão sinfônica e popular, em orquestra. Tímpano, xilofone, vibrafone, marimba, bateria, lata, toco de tudo.”
E o que a música te faz sentir?
“Um bem estar que nunca tive na minha vida, mudou meu modo de pensar e agir com as situações”.
Café Forte
Café tem uma história muito forte. Por isso vamos contá-la, antes de falar do PIM.
Pablo nasceu em Barra Mansa, RJ. Com 15 anos se interessou pela música, e numa banda marcial que ele aprendeu a ler partitura e tentou absorver tudo o que pôde. Sua mãe o apoiou. Seu pai ficou bravo, lhe disse que música não dava futuro.
Todo dia saia de manhã para ir ao colégio, caminhava por 40 minutos. Então, para poder se dedicar melhor a música ele passou a freqüentar o colégio no período noturno, “procuramos um lugar bom porque de noite a aula é muito bagunçada. Era música das 10 horas da manhã às 6 horas da tarde, porque lá tem que mostrar o resultado o mais rápido possível. E depois ia pro colégio. Chegava a noite em casa, naquela coisa toda, se tinha trabalho pra entregar já fazia”.
Depois de 2 anos estudando, Pablo fez a prova para a Orquestra de Barra Mansa. Ele passou e começou a receber dinheiro, 280 reais por mês, o suficiente para a condução, “mas o meu primeiro salário eu dei pra minha mãe, porque eu sabia como era, eu ia a pé há 2 anos, porque não podia ir mais 2, 3 meses”, conta o garoto que dava os primeiros passos para ser músico.
Seu pai continuava com a mesma idéia. Então, para provar que ele era capaz e seu sonho era válido, ele tomou uma atitude.
Pausa para o Café
“Meu pai falava pra caramba. E eu sempre em banda, sempre na música. Depois de tudo isso, eu fui fazer a prova da Orquestra Jovem e Experimental da Fundação CSN – Companhia Siderúrgica Nacional – em Volta Redonda, que era um dinheiro mais alto, 800 reais. Passei. Quando saiu o primeiro salário, juntando com o dinheiro da orquestra, eu chamei meu pai. Assim num belo domingo, falei pra minha mãe compra uma coisa boa para o meu pai comer, eles sempre se davam bem, mesmo separados. Meu pai chegou em casa, saquei o dinheiro todo do banco e coloquei em cima da mesa e falei, “aí pai... esse é o meu futuro que não ta dando futuro ainda, mas pode dar daqui pra frente”. Meu pai chorou na hora, aí eu saí de casa, fui andar a toa meu pai ficou com todo aquele dinheiro na mão. E foi assim que ele acreditou em mim. Agora me liga sempre, pergunta como estou, vai assistir tocando...”
Música com Café
A Marcha Hungara, do compositor francês freqüentemente incompreendido Hector Berlioz, foi a primeira peça que Pablo tocou na Orquestra Sinfônica de Barra Mansa e é a música que ele mais gosta. Algumas pessoas definem a música com uma erupção vulcânica e é assim que coisas aconteceram na vida de Pablo.
No dia 7 de setembro de 2006, ele acordou, se preparava para tocar. Sua mãe passou mal, levaram para um posto de saúde, teve infarto do miocárdio com 46 anos, por causa da diabetes, “ela faleceu, num posto de saúde, num sete de setembro, quando eu ia tocar, ela faleceu. Cinco da manhã... eu peguei afastamento, fiquei em casa.”
Ele conta com uma naturalidade, de quem enfrenta muita coisa todo dia. Quando a pergunta sobre preconceito surge, ele logo diz: “primeira coisa que faço quando vou tocar em São Paulo é perguntar se é em Guarulhos, porque se for eu não vou. O músico é muito sensível”. Em 2007, quando iria se apresentar pelo PIM, ele e mais um garoto do grupo foram destratados num hotel da cidade. “Falaram que o nosso nome não tava no hotel. Aí esperamos os organizadores, daí a recepcionista falou que no hotel não entrava negro porque aqui é um hotel rico”. E esse foi o motivo pelo qual a banda inteira foi embora da cidade e não se apresentou. Mas, quando isso acontece lembra sempre do que sua mãe dizia: “tratar todas as pessoas com igualdade e educação”.
Pablo Sergio mora em Barra Mansa, mas vai a Vassouras na segunda, terça e quarta, tocar no PIM. Na quinta e sexta ele toca na CSN, que fica em Volta Redonda. Ele fica em casa na sexta e sábado, quando encontra com sua avó, tia e vive como menino. No domingo ele volta para Vassouras. Rotina pesada. Mas ele fala com a alegria de quem está fazendo o que queria. Música. Ele ama música erudita. Mas adora tocar música popular. Gosta de contra-baixo e da ópera Carmina Burana.
Sobre o projeto PIM, que Pablo se refere no começo da matéria, é preciso dizer que trabalha com 700 pessoas, de 6 a 88 anos, na região do Vale do Paraíba Fluminense e já virou Pontão do Ministério da Cultura, ou seja, vai abranger mais de 15 cidades e atender mais gente. O programa deu certo, pois teve adesão da comunidade, com uma Orquestra Sinfônica Jovem Regional, um grupo de percussão (PIM Lata), uma Banda Sinfônica, Coral.
Sobre sua mãe, que nem é preciso dizer seu nome, ou o que fez durante sua vida, ele mesmo diz: “Minha Mãe era e é uma mulher que nunca vai me deixar. Ela sempre me incentivou a fazer o que eu gostasse. Vivia sempre alegre do nosso lado. Amo minha mãe. Seja onde ela estiver”. E assim falou Café, tomando café, num dia que fez um sol bonito. História de um nome só.
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