Solidão.
Solidão.
18.625.676 palavras para solidão. 18327 minutos de calmaria, de som ambiênte. 18327 minutos de tempestade mental. Fluxo contínuo. Ininterrupto. 762 pessoas no meu orkut. 19 bons amigos. 4 irmãos. São Paulo. Mais ou menos 11 milhões de habitantes. Onde eu moro tem mais três. Solidão.
Minha voz. Outra voz. Voz trêmula, volume baixo, telefone chiando. Confusão. Digo A, B, C. Você fica em silêncio. Eu fico em silêncio. Você quer finalizar aquela confusão. Eu duvido. Acento a cabeça no travesseiro, amo. Evito comunicações, não durmo. Acordo na hora em que você vai deitar. E é você quem não duvida. Você bota seu corpo na cama e eu logo chego. Você sofre. Duvida. Eu me perco em silêncio. Me perco em palavras, ressoantes, tensas de outrem. Duvido. O gosto da sua boca tira a dúvida. O seu corpo deixa escapar a certeza.
Solidão. Saio sozinho. No elevador, uma senhora esbarra em mim com suas sacolas de compras do mercado. Tomates, cebolas, bons legumes para um refogado de carne (pode ser coxão duro mesmo, é só deixar mal passado) entre o cheiro da venda de nome elegante, os andares, quatro apartamentos por andar. Pelo menos duas pessoas por apartamento. Oito andares. Ela esbarrou em mim, era a chance única que eu tinha para me comunicar o dia inteiro.
- Desculpa, meu jovem.
- Não foi nada, imagina. E alias, bom, dia boa tarde e boa noite. Caso não nos encontrarmos no elevador novamente, um bom ano, boas perspectivas, boa sorte.
Claro que não disse nada disso para a senhora. Parei no não foi nada imagina. O máximo que fiz foi abrir a porta para ela sair quando eu entrei.
Mais seis dias passaram. As coisas parecem não mudar. Rotina. Tédio. Parede suja do prédio mofa a minha vista. A ausência de ruídos me deixa incontrolável. Solidão. Rima com confusão. Construção. Demolição. Abdução.
Num dia Quando você pensa, sinais. Fumaça. Costas tensas. A coluna curvada, logo se torna rígida. Atenta. Olhos que significam cada pequena coisa. Mas na verdade são olhares que não significam nada, além de estar.
Recebo uma mensagem. Estão me observando. Disfarço apago a luz e tento observar. O box do banheiro do vizinho se torna a suposta câmera espiã. Recebo outra mensagem, é o meu estômago. Ele quer mais de mim, me corroe de dentro pra fora, já que eu não lhe forneço vitaminas e minerais necessários. Tenho gastrite. Regurgito. É mensagem de que ser estômago consome.
As palavras ressoantes voltam. E eu corro para escutar a sua voz. Certeza. Calmaria. Mas é só me entregar em pessamentos. Olhar através do olho mágico. Me sentir sozinho no meio do concreto que atos falhos me consomem ao inverso. Procuro uma certeza no mar de dúvidas. O silêncio da noite me perde. Vejo meu umbigo. A única ligação que tinha com quem me trouxe ao mundo e me deixou comigo mesmo. A cicatriz para dentro me induz ao centro do meu corpo. Ando significando em demasia. E eu volto para o ponto que nunca deixei de estar.
No rádio deixo tocar músicas que jamais ouviria em público. Pois eu tenho um jeito. Não do jeito que sou hoje. Ou do jeito que fui. prefiro manter isso enquanto me perco em concreto. Preferi ouvir escondido. Culpa da distância e da mudança. Aproxima a um dos sentimentos mais universais que existem: O sentimento de regionalismo. De saudade daquilo que sempre esteve próximo e agora é potencializado por cada quilometro do lado oposto.
“Por ser de lá, do sertão, lá do cerrado, lá do interior do mato, da caatinga do roçado.
Eu quase não saio, eu quase não tenho amigos, eu quase que não consigo, ficar na cidade sem viver contrariado.” É isso, ouvi Gilberto Gil. Aquele lamento sertanejo, tão universal. “Nessa multidão boiada caminhando a esmo.”. Estou na sé. No metrô. Choveu. Encheu. Mar de cabeças. De pessoas. Seguindo turvas. Densas. Tensas. Compartilho quase todos os sentimentos que elas naquele momento. São nove da noite. Eu ainda não voltei do trabalho. Ainda estou sozinho. Preso. Com milhares de pessoas embaixo do chão. Me sentindo sozinho. A solidão devora. Me faz ouvir os ruídos do meu estômago apenas. E os chiados, dobrados do meu umbigo. Tiro um retrato. Alivia a dor. Sigo em frente. Apenas é mais uma sequência de sentimentos que acomete mais um migrante de sonhos avessos.
- Bom dia minha senhora, em que andar você vai parar?
2 pessoas falando:
Menina, vc é boa demais! Vira e mexe, procuro algo seu, acho e fico extasiado. Sua delicadeza com as palavras é rara, muito rara, cada vez mais rara. Ateu convicto, agnóstico empedernido e materialista dialético irremovível – o que, dizem muitos, é totalmente "démodé" –, às vezes penso que esta empatia que tenho com vc tem a ver com almas gêmeas em vidas passadas – posto que somos de tempos tão distantes. Encontro aí o que sempre procurei com muita clareza e também sem nenhuma. Como nada é perfeito, até agora só vi dois defeitos: vc dá bolo e não domina a língua de Shakespeare como domina a de Fernando Pessoa.
parabens muito bom seu textoo.. sou fã agora...! @manesq3
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